Publicado por: Verônica Almeida | Outubro 23, 2009

Em busca de alguma leveza

Desejar, sonhar, desenhar…

Desenhar?

É. Deixar o lápis correr no papel,

Esquecido sobre a mesa

E… Deixar

Deixar-se!

Deixar que os instintos me levem

Pra longe

E te tragam…

Pra perto

Sem que dependamos, então, do tempo

Sem que pensemos, assim, no espaço

                                                           

Ter, esquecer, correr…

Correr?

Sim. Fazer concebíveis as oportunidades

Mesmo quando parecem distantes

E… Deixar

Deixar-se!

Deixar que os ventos me abracem

Pra que eu me sinta

Mais segura

E você…

Mais forte

Todos os fracassos serão construtivos

Todas as vitórias, comemoradas

                                                                                                         

Decidir, sorrir, partir…

Partir?             

Aham. Deixar tudo o que me corrói  

E me sentir, então, aliviada

E… Deixar

Deixar-se!

Deixar que alguma leveza me arraste

Pra perto

E te arraste…                                                                         

Pra longe

E de repente, o caminhar mais suave

De repente, o olhar mais sereno

 

(De repente de perto sem tempo sem espaço de longe)

Publicado por: Verônica Almeida | Outubro 18, 2009

Álvaro de Campos

Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
 
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
 
Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...

 

 

—-

 

 

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
 
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
 
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
 
Que mal fiz eu aos deuses todos?
 
Se têm a verdade, guardem-a!
 
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
 
Não me macem, por amor de Deus!
 
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?
 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
 
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
 
O céu azul — o mesmo da minha infância! —,
Eterna verdade vazia e perfeita!
O macio Tejo ancestral e mudo.
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
 
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

 

—-

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
 
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
(Trechos de poemas diversos de Álvaro de Campos)
Publicado por: Verônica Almeida | Setembro 18, 2009

Sentido.

Mais uma vez você tem razão.

A vida tem feito todo sentido dentro do sentido que criei pra ela? E o sentido que encontrei pra vida em algum momento, agora findo, serei capaz, ainda hoje, de reencontrá-lo? E se não reencontrá-lo, será que consigo destruí-lo e reconstruí-lo de maneira que as bases sejam mais firmes do que outrora?

(…)

Talvez.

Gosto da minha letra de fôrma porque não sei escrever de outra forma, e não porque é realmente bonita. Gosto de ir àquele barzinho porque é mais perto, e não porque é o melhor. Se a letra não é bonita, se o barzinho não tem o melhor serviço, é porque esqueci destes detalhes… De repente já não fazem a diferença que deveriam. Isso acontece todas as vezes em que se vive sem fazer sentir. Sentido.

Talvez tudo tenha virado rotina sem que eu me desse conta: As atitudes, o olhar, o sorriso, o discurso, o lugar. Talvez algumas coisas tenham passado e não dei o braço a torcer (só pra provar que estou certa uma vez mais).  Tudo decorado inconscientemente porque é mais fácil, é mais seguro. O risco de cair é menor, embora exista ainda sim.

Como eu faço agora para destruir todas as inferências criadas por uma lógica tão minha e que, por essa mesma razão, não compartilho?

E se tudo isso se perdesse de uma hora pra outra, algo de realmente importante se perderia? Sentir-me-ia mais leve ou angustiada?

—- 

Eu devo ir
Não há mais sentido
Nos resta se juntar

Quem sou eu
Já não importa
Nem nunca importou

O que importa é o que te quebra em duas cidades
O que importa é o que te deixa tão transfuso

O que é a dor eu não entendo
Mas sinto apertar de leve o meu peito
Nas madrugadas quando estou a navegar

Faz quarenta dias que eu estou no meu barco a vela
E não me sinto tão sozinho, eu tenho meus amigos
Que só aparecem quando eu bebo

Que só aparecem quando eu bebo
Que só aparecem quando eu não sou eu
E hoje eu não…

O que importa é o que te faz rachar as velas
O que importa é o que te faz abrir os olhos de manhã

Já é de manhã
Já é de manhã
Já é de manhã
Já é de manhã
Adeus, já é de manhã
A estrada espera, já é de manhã…

(Vanguart em “Para abrir os olhos”)

Publicado por: Verônica Almeida | Setembro 5, 2009

(Tanto que já não há)

Há tantas pessoas naquele salão

Que já não cabem mais

Há tantas pessoas que lutam contra a solidão…

 

Há tantas pessoas pra discutir

Mas parece que já não há paciência em ouvir

Há tantas pessoas com tantas idéias…

 

Há tantas pessoas

Nesse mundo

Que fica difícil

Dizer tudo

 

Há tantas pessoas que correm por nossas vidas

Que já não é de se estranhar:

Há tantas pessoas que já não são tantas!

 

Há tantas pessoas que já não há mais

E  juntas são sozinhas

Perdem-se no caminho

Restam poucas:

As mais especiais.

Publicado por: Verônica Almeida | Julho 12, 2009

Há quanto tempo?

  Hoje eu acordei sentindo falta de algumas pessoas. Há quanto tempo você não fala com aquela pessoa com quem dividia os mais sinceros segredos? O quanto vocês se distanciaram pelas rotinas diferenciadas? A maior parte da culpa pode não ser sua, como você sempre julga, mas há quanto tempo você não manda um e-mail ou liga nem que for apenas pra dizer um “olá”?

  Hoje eu acordei cedo pra cumprir mais um compromisso. Há quanto tempo não há tempo para não fazer absolutamente nada? O quanto você se esforça pra viver todos os dias de cada semana? E o quanto a rotina pode te incomodar a ponto de te deixar estressado?

   Hoje a casa estava vazia, e, por isso, passei parte da tarde gélida sozinha. Há quanto tempo você não ouve a sua própria voz? Há quanto tempo não se olha no espelho pra apreciar o próprio sorriso? E como isso pode fazer toda a diferença?

   Hoje precisei ouvir uma música. Há quanto tempo você não a ouvia? Há quanto tempo deixara de refletir sobre a letra? E há quanto tempo não presta atenção no som do piano?

  Hoje saí com amigos. Há quanto tempo não dava aquela gargalhada lembrando fatos passados? Há quanto tempo não sentia uma conversa agradável, daquelas que você quer ficar a noite toda conversando e descobrindo as novidades?

   Hoje um rapaz me convidou pra sair. Há quanto tempo você não se sente disposta para se relacionar por julgamentos precipitados? E o quanto você quer encontrá-lo?

   Hoje dormi profundamente e tive sonhos confusos. Há quanto tempo as cores já não são nítidas? Há quanto tempo sonha com as mesmas pessoas e situações semelhantes? Há quanto tempo não sabe o significado de seus próprios sonhos?

Publicado por: Verônica Almeida | Julho 3, 2009

Estratégias via-msn

Fernanda diz:

Não acredito que eu fiz isso!

Fernanda diz:

liguei do celular da minha mamãe pra casa do César, a mãe dele atendeu e eu não respondi! hahahahaha

Verônica diz:

pq vc desligou?

Fernanda diz:

ah, porque eu não quero que ele saiba que eu tenho o telefone da casa dele

Verônica diz:

hahaha

Verônica diz:

n foi ele quem te passou?

Fernanda diz:

e estou com vergonha de pedir para chamá-lo!

Fernanda diz:

que inferno!

Verônica diz:

pq ligou então?

Fernanda diz:

não! eu peguei no celular do Lucas, marotamente. hahahaha

Fernanda diz:

porque queria ver se ele atendia na casa dele

Verônica diz:                                                                                    

aaaaaah

Verônica diz:

pede pra falar com ele e dá outro nome. huahua

Verônica diz:

quando ela chamar vc desligaaaa, hahahaha

Fernanda diz:

nossa! boa idéia!

Fernanda diz:

mas acho que ela vai saber que fui eu…

Fernanda diz:

que liguei e desliguei

Verônica diz:

e daí?

Verônica diz:

ela n sabe quem vc é

Verônica diz:

vc diz que é Flávia

Verônica diz:

Larissa, Luana

Fernanda diz:

francisca

Verônica diz:

Exatamente, esse é o espírito! Francisca…Ela vai achar que foi essa pessoa

Fernanda diz:

hahahahahahahaha

Verônica diz:

hahahaha

Verônica diz:

Clarisse

Fernanda diz:

Rodriga! hahahahaha

Fernanda diz:

mas por que a Flávia ligaria na casa do César justamente hoje que ele marcou de sair com a Fernanda para lhe contar um segredo?

Verônica diz:

pq a Flávia é uma idiota

Verônica diz:

e n sabe de nada

Fernanda diz:

não! ele vai saber que fui eu…

Verônica diz:

quando ela chamar então e ele atender vc diz “É mentira…é a Fernanda, surpresaaaa” hahahha

Fernanda diz:

sério?

Fernanda diz:

acha que eu deveria fazer isso?

Verônica diz:

Jamais!

Fernanda diz:

ia ser engraçado!

Verônica  diz:

hahaha

Verônica  diz:

ia, eu estou rindo loucamente

Fernanda diz:

eu também

Fernanda diz:

vou fazer isso, mas mais tarde, quando eu estiver bêbada

Fernanda diz:

apesar de que vai ser super tarde, né?

Verônica diz:

as minhas idéias são maravilhosas!                       

Fernanda diz:

farei agora!

Publicado por: Verônica Almeida | Julho 1, 2009

Independência

   (…) Só que as pessoas só exigem dos outros. E me diz como um objeto pode causar tantos sentimentos? Como esquecer a chave de casa antes de ir trabalhar é capaz de gerar tanta discórdia? Como uma frase pode te jogar no chão? Como situações imbecis são capazes de te deixar extremamente apreensivo, temendo coisas inconcebíveis? E como fatos bobos podem causar arrependimentos não tão bobos?

   Simples – você se permite tudo isso.

   (Eu quero cada vez mais distância porque sei que, de certa forma, não posso depender tanto dos outros e também sei que, pior do que isso é não poder contar com as pessoas que aparentemente deveriam ser as que mais te apoiam).

—-

   Se eu te peço um apoio, você pensa em me derrubar

    Se eu espero carona, você vem me atropelar

    O que foi que eu fiz de errado? O que é que eu deixei de fazer?

    Algo me diz que se há um culpado nessa estória - é você

    Até ontem ficávamos escondidos lado a lado, dividindo o mesmo abrigo

    Se eu ligo o rádio é pra esquecer sua voz

    No porta-retrato uma nuvem tão cinza se formou entre nós    

    E não há nada nesse mundo que me faça voltar atrás

    (Trecho  de Atalhos em “Mocinho e bandido”)

Publicado por: Verônica Almeida | Junho 21, 2009

Inferências

Se achar que tem que falar

Não guarda nada, vai e diz

Sem medo de machucar

Sei bem cuidar de mim

 

Se quiser me enganar

Vai, sem pestanejar

Pois eu nem vou saber

Quem pensa que engana: a mim ou a você?

 

Se pensar em corrigir

Não faça sem um largo sorriso

É melhor do que fingir

Que está tudo preciso

 

Se quiser me contrariar

Por favor, faça isso

Não posso te controlar

Só respondo mesmo por mim

 

Se olhar para trás e ver

Que houve muito desperdício

Volta pelo mesmo caminho

E procure algum resquício

 

Se pensar que vale a pena

Jogar tudo pro alto

Vai e joga, mas depois

Não vem brigar comigo

 

Se o trabalho for mais importante

Tudo bem, vou entender

Só não espere que o meu

Seja menos relevante

 

Publicado por: Verônica Almeida | Junho 9, 2009

Sentimentos paradoxais

A minha felicidade, tantas vezes, se limitou a uma palavra, um gesto, um olhar seu. O meu sorriso, tantas vezes, se condicionou a uma frase, um abraço, uma ligação sua.

 

Eu gosto tanto e tanto de você que me sinto feliz ao te ver feliz, porém o seu estado já não determina (de jeito nenhum) o meu.

 

Eu penso tanto e tanto em você que se torna fácil me perder em todas essas cores, que refletem sempre a sua imagem: Forte e fraca; óbvia e confusa; clara e escura. Ah! Esses paradoxos que tanto me afligiram já não causam mais o mesmo efeito.

 

Eu sinto tanto e tanto a sua falta que seria de total insensibilidade a minha… Querer esconder!

 

E acho tão irônico ter inibido toda a minha intensidade quando era você todo o tempo, ali, dizendo que deveríamos prestar atenção. É provável que o seu discurso não seja tão coerente quanto acreditei.

 

Já escrevi milhões de textos que se parecem tanto com este, mas que se distanciam no exato momento em que meu desejo inexorável não é mais que você conheça todos esses sentimentos e pensamentos. Pois, somente agora percebi que para mim, de certa forma e, sinceramente, tanto faz!

 

Talvez seja reflexo dos sentimentos que você mesmo alimentou aqui dentro, todas as vezes em que virava as costas, somando um imenso vazio. Caso um dia perceba qualquer erro nesse sentido e vier me procurar pode ser que eu me vire em direção a você. Pode ser. Existe também a possibilidade de me virar do lado contrário e não tenho com isso qualquer pretensão de vingança. É só que os contextos mudam.

 

E a indiferença que me esforcei para exibir se tornou tão espontânea quanto o amor que ainda resta. Eu não sei explicar, mas os meus sentimentos estão paradoxais. E se ainda sinto o meu coração bater, são os meus olhos que já não sentem a mesma vontade de te ver.

Publicado por: Verônica Almeida | Junho 4, 2009

Imagens

Sei que é uma fase. Todas essas sensações e (in)certezas que me incomodam tanto nesse momento. Preciso, portanto, não necessariamente entender, mas absorver.

Amanhã resolverei coisas menos urgentes e, assim, poderei dormir até mais tarde, mas não muito tarde. Apesar de não haver grandes planos. À tarde alguns compromissos e depois talvez tocar guitarra, assistir um filme, ler o livro que ficou pela metade em cima do baú, passar a tarde nublada dentro de casa. Não quero sentir frio lá fora quando aqui dentro neva.

Nem todas as imagens são lindas. Nem todas as coisas são visíveis. Se o seu interior fosse visível, o que será que veria?

Creio que algumas coisas não se materializam propositalmente, por não serem plausíveis. No entanto, se alguém pudesse enxergar o que há por dentro, certamente se assustaria. E o que posso fazer se é o que sinto, afinal?

Sei que vai passar. Todas essas emoções que insistem em flutuar enquanto eu morro de medo que elas se afoguem. Porém, não posso aguardar, simplesmente, numa conduta frívola, que as coisas aconteçam espontaneamente.

Depois de amanhã precisarei resolver problemas maiores, todavia poderei dormir até mais tarde, muito mais tarde. Há grandes planos. À tarde sair com os amigos e depois talvez sorrir com o seu comentário, conversar sobre a música, recomendar o livro já lido, passar a tarde nublada assistindo a algum filme interessante. E o frio que estará lá fora nada terá em comum com o céu ensolarado que brilhará aqui dentro.

Algumas imagens são lindas. Contudo, nem todas as coisas são visíveis. Se o seu interior fosse visível, qual seria a cor?   

Não que seja concebível, tens toda a razão, meu amor. Mas, se alguém pudesse enxergar, ficaria tão eloqüente o que estou tentando dizer. Porque, o que são palavras se não associadas às imagens? Diz-me, por favor, o que são palavras quando somente palavras?

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